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Artistas misturam percussão e eletrônico na última noite do Percpan

segunda-feira, 28.07 16h44

Samba, hiphop, funk e a presença de baianas animaram a plateia do festival

O GLOBO

SALVADOR— A funda tradição baiana representada pelo Samba Chula de São Braz – uma das atrações da última noite do 20º Percpan, realizado entre sexta-feira e domingo no Pelourinho, em Salvador – se impunha na bailado de suas tias baianas e na voz curtida por décadas de seus cantores. Até que eles, sobre a base inconfundível da chula, começam a entoar uma melodia deles, mas adaptando versos conhecidos: “Não tenho carro/ Também não tenho teto”. E repetem, como se fosse um refrão ancestral, “Lepo lepo/ Lepo lepo”. Com boné (“NY” bordado) e paletó vermelhos, Márcio Victor entra no palco e começa a dançar com as baianas, misturando o samba típico com a coreografia de seu hit. Naquele momento e nos seguintes, quando o artista passou por clássicos como “Marinheiro só” e “Cada macaco no seu galho”, eles deixaram evidentes o fato de que é dali daquela fonte que vem o chamado pagode baiano, de Gerasamba/ É o Tchan a Psirico, passando por Harmonia do Samba e muitos outros.

O encontro da ancestralidade com a linguagem do pop contemporâneo – vista no “Lepo lepo” versão chula – deu o tom das apresentações da noite de domingo, batizada de “Das matrizes às raízes contemporâneas”. A abertura já mostrava isso, com o palco tomado pelos tambores de Aguidavi do Jeje, tocados por 12 percussionistas, crianças entre eles. O ritmo do candomblé tocado com autoridade se misturava em alguns trechos ao violão e a grooves vindos de fora dos terreiros.

Nem sempre o cruzamento se dava de forma orgânica. Era claro o descompasso entre o tambor de Márcio Victor (percussionista respeitadíssímo, com estrada longa antes de estourar nacionalmente com “Lepo lepo”) e o batuque digital, feito no controle de videogame Wii, de Mikael Mutti, que participou do fim da apresentação do Samba Chula de São Braz. E seu grupo Percussivo Samba Novo, atração seguinte, a despeito do impacto visual (MPC em formato de guitarra baiana e macacões coloridos) e da presença de bons percussionistas, se mostrou aquém da força das tradições que procurava estilizar, como o samba-reggae.

Mais rico e eficaz foi o diálogo entre os toca-discos de DJ Cia, de São Paulo, e os tambores do percussionista Gabi Guedes, da Bahia. Juntos, e muito bem integrados (com o eventual reforço do trompete de João Teoria e dos couros de Jorjão Bafafé), eles serviram de mestres de cerimônias e de base musical para um apanhado de artistas que montaram um panorama do hip hop da Bahia (Opanijé, Simples Rap’Ortagem e Nelson Maca, que declama poesia usando o vigor combativo do rap), do Maranhão (Preto Nando), de Pernambuco (Zé Brown) e da Paraíba (Kalyne Lima). Dentro da proposta da noite, é significativo que eles tenham deixado o palco emendando “Saudação a Toco Preto”, de Candeia, e “Bigode grosso”, de MC Marcelly.

O show mais esperado da noite (novamente prejudicada pela chuva, que se fez presente nos três dias) veio em seguida, com Marcelo D2. Dentro da proposta da apropriação de velhas tradições, o rapper se mostra à vontade na linguagem que desenvolveu, sobretudo a partir do disco “À procura da batida perfeita”, de 2003. Samples de velhos discos de MPB e samba, uma banda com pressão (de quem, por um lado, se formou no rapcore do Planet Hemp de “Usuário”, por outro conhece o caminho das pedras das rádios pop), o apelo afirmativo da marra, que evoca ao mesmo tempo a malandragem suburbana ancestral e códigos de conduta dos rappers americanos – tudo ali numa alquimia que, se hoje já não surpreende, se mostra redonda. Indo de músicas de seu último álbum, “Nada pode me parar”, aos sucessos do Planet Hemp, com sessão de beatbox de sambas (com Fernandinho Beatbox) e dedicatória a Chorão (“e a toda a rapaziada do skate”, em “1967”), o rapper satisfez a plateia e amarrou o conceito da noite. E também o conceito dessa nova fase do Percpan, em praça pública, não mais em teatros, que exige um diálogo com o que é popular sem perder de vista as experimentações, a pesquisa rítmica e o cruzamento de tradições diversas.

– O repórter viajou a convite da produção do festival.

 

 

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